DIÁRIO -- 29/11/2012 : Polémica marca: MEMÓRIAS DE SALAZAR

29-11-2012 22:09

Soube hoje pelo Publico on-line, https://www.publico.pt/sociedade/noticia/vinho-memorias-de-salazar-chumbado-para-nao-por-em-causa-ordem-publica-1575289#/0 , que a tentativa de registar uma marca industrial que se chamaria “ Memorias de Salazar” foi chumbada pelo INPI, fundamentando que o nome de Salazar ainda é polémico e susceptivél de ferir consciências.

 Ora vejamos o que me parece a mim:

1º -- O homem, queiramos ou não, é uma figura histórica, entendamos que cheia de malefícios ou de bondades, isso será a opinião de cada um. A opinião de uns, vale em termos teóricos, literalmente o mesmo que a de outros. Pois se uns acham que a marca deve existir e estão dispostos a pagar pelo seu registo, não me parece que as justificações do INPI encaixem numa democracia plena como a que pretendemos ter.

2º -- Se o vinho se chamasse Memórias de Pombal, passar-se-ia o mesmo? Eu tenho serias dúvidas. Pois este Pombal não foi muito mais sanguinário e duro que o Salazar? A mim claramente parece-me que foi. Alguém quer ir atirar com a estátua abaixo no largo com o seu nome? Não me parece. Então para quê embirrar com alguém que fez parte integrante da nossa história recente? Só espero que não se concretize o velho proverbio “ de trás de mim virá quem bom de mim fará”. Mas esta corja de bandidos que nos governa hoje, não augura nada de bom.

3º -- Nada me liga ao Prof. Salazar, que não seja o supremo interesse do estado enquanto coletivo, que parece-me que ninguém lhe pode regatear a ele. E que eu defendo intransigentemente de acordo com as teorias distributivas da esquerda socialista. Digo por brincadeira, que se ele vivesse hoje, com o que o mundo se tornou ultraliberal, rever-se-ia apenas nos partidos comunistas, acho por vezes até que em termos de defesa do erário publico adiante do particular, era mais comunista que alguns comunistas de hoje.

4º -- Não tenhamos duvidas, com o passar do tempo e com o desaparecimento das lembranças do sofrimento às mãos da ditadura, que ainda se reconhecerá que não foi tudo mau e que muita obra foi bem-feita e mantem-se atual até hoje, sem o enriquecer estupido dos que nada fazem, como hoje com o centrão que se tem governado fazendo obras públicas, mas sem participar nelas. Não, não gosto de ditaduras de nenhuma ordem e por isso não posso nunca defender o seu comportamento enquanto ditador. Agora entendo que a bem da liberdade de expressão, devemos permitir aos saudosistas que falem dele e o defendam, para mim isso é democracia, bem me bastou os partidos comunistas serem ilegais por pensarem diferente, para ser melhores não podemos comportar-nos da mesma maneira que aqueles que criticamos.

Conclusão: Devemos ser um país livre e sem censura, autorizando a todos o direito à sua opinião, desde que não contribuam para a desordem pública nem pratiquem o apelo a sentimentos menos nobres, como o racismo a xenofobia e a discriminação dos diferentes. Pois se livremente são permitidos na nossa europa e mesmo em Portugal, partidos de extrema-direita com apelos nazis, não me parece que um vinho ou uma linha de produtos com o seu nome pudesse causar qualquer ataque à nossa forma de viver ou estar, pois não se lhe compara, nem na doutrina nem na forma à memória do Beirão ditador. Quero salvaguardar que concordo com a superioridade moral da esquerda e dos comunistas, essa que apregoava o ilustríssimo Alvaro Cunhal, a bem dela estes qui-pro-quo não interessam nos tempos que correm e para a demonstrar devemos ser tolerantes com as opiniões, mesmo que as achemos atentatórias dos nossos ideais. Só isso nos fará infinitamente melhores que os que nos afrontam com aquele anticomunismo primário assente nas ditaduras do leste.

Junto uma frase proferida por um dos ilustres perseguidos pelo regime Salazarista e que demonstra a tal tolerância de que falo. Questionado por um jornalista,"quais as três figuras mais importantes/ marcantes da história de Portugal?" Tito de Morais respondeu o seguinte: “ claramente há três nomes, se me pede para citar só três, são D. João II, o Marquês de Pombal e o Professor” Instado pelo jornalista a esclarecer se o professor a que se referia era Cavaco Silva, à altura primeiro-ministro, sorriu respondendo “ não me faça rir. Refiro-me a Salazar” . Estas afirmações foram proferidas algum tempo antes de morrer, e certamente estarão guardadas nos arquivos da RTP.

P.S. Mais uma vez reitero, não querer achar que posso dar lições de democracia e tolerância a ninguém, muito menos aos que sofreram às mãos da tortura do antigo regime tutelado pelo ditador António de Oliveira Salazar.

 

Coimbra, 28 de Novembro de 2012

DINIS JESUS