DIÁRIO - 13/02/2013
Diário - Desemprego o flagelo da era moderna.
Era para escrever hoje sobre a obrigatoriedade de pedir fatura em todo lado, de um café na pastelaria até à molhada de grelos na feira. Mas a noticia que indico no link, fez-me mudar de tema e abordar o desemprego.
https://sol.sapo.pt/inicio/Internacional/Interior.aspx?content_id=68192
Pois como se lê na notícia, um homem imolou-se pelo fogo em Nantes na França, diante de um centro de emprego. O que acham que o levou a tal? O ser louco? O querer dar nas vistas? Motivos religiosos? Não creio que tenha sido nada disso, terá sido tão só o desespero de não ter como ganhar para solver as suas necessidades. Provavelmente não ter que dar de comer aos filhos.
Cito um ilustre da história e do renascentismo, nem sempre pelos melhores motivos, mas com esta sua afirmação concordo em absoluto.
“Nunca foi sensata a decisão de causar desespero nos homens, pois quem não espera o bem não teme o mal.”
Niccolo Maquiavel.
Lá em França, como cá, só que cá em maior numero, cada dia há mais desempregados, hoje também li que em Portugal há 57% de desempregados que não recebem nada da Segurança Social. Como viverão estas pessoas? O que comerão? Como mandarão os filhos para a escola? Que traumas causarão estas diferenças de rendimentos na cabeça das crianças e mesmo dos pais? O que fazemos para atenuar isso? A única das questões que coloco e sei a resposta é o que fazemos para atenuar isso, pois a resposta é nada.
Será que os governos europeus só encontram no desemprego a única forma de tornar competitivas as economias? Se assim é, parece-me uma certa falta de lucidez, que para alguns se aguentarem e até enriquecerem, outros tenham de passar fome, obrigando a nossa sociedade a ter cada dia mais e mais pobres e também mais ricos e estes últimos com níveis de riqueza cada dia maiores. Isto se mais não for, é pelo menos uma grande imoralidade.
O desemprego já se afigurava na década de noventa do sec. XX como o pior do que se iria passar nas economias ocidentais, pois já muitos autores haviam teorizado e alertado para isso, por cá o ilustríssimo Dr. Almeida Santos, escreveu um livro de título” DO OUTRO LADO DA ESPERANÇA” onde num dos capítulos alertava para o que nos está a acontecer, bastava ler e concordar para poder antecipar e assim alterar certos rumos, os que nos trouxeram até aqui.
Para que se perceba o que causa desemprego, alem do encolher do PIB dos países, ou se não o encolher pelo menos o não crescer ao ritmo necessário para assegurar a manutenção dos postos de trabalho. Basta ver o que cresce a população do mundo ao ano, cerca de oitenta milhões de pessoas, seria necessário para as absorver que o número de postos de trabalho também crescesse esse mesmo número. Mau é que essa população aumenta em países de mão-de-obra barata, fazendo com que nas economias ocidentais se extingam postos de trabalho, por terem salários mais elevados, por maior capacidade tecnológica e pela baixa do consumo nesses mesmos países ocidentais, devido à crise, diminuindo assim o PIB. Sem crescimento com a melhoria das tecnologias, garantidamente aumentaremos o número de desempregados nas nossas sociedades ocidentais.
É também causa de desemprego a chegada ao mercado de trabalho de quase todas as mulheres, digo quase porque as mulheres árabes ainda não vieram claramente para o mundo do trabalho, trabalharão, mas não no setor produtivo da economia. Quando elas vierem trabalhar em força, aí agravar-se-ão ainda mais os problemas do número de desempregados no mundo.
Será por isso que defendemos que um dos membros do casal deveria ficar em casa, a tomar conta das tarefas caseiras, da educação dos filhos, das burocracias da família e outros afazeres imprevistos. Deverá trabalhar, com emprego, o membro do casal que conseguir ter um salário mais elevado, para assim proporcionar melhor qualidade de vida à família. Mas esta é uma consideração muito nossa e muito pouco aceite pela sociedade, sobretudo pelas mulheres, que acham que se veriam de novo atiradas para casa, para parir e amamentar. De todo esta não é a nossa ideia.
Creio que estamos neste assunto a fazer tudo ao contrário, com o fito apenas de equilibrar as economias, em termos de contas públicas, não se importando com o que acontece a um grupo cada dia maior de pessoas, o ser atiradas para a pobreza. Deveríamos em vez de aumentar o número de horas de trabalho, diminuí-las, de forma que houvesse rendimento para todos, ainda que se baixassem os salários na razão direta da diminuição das horas de trabalho, mas dessa forma distribuiríamos melhor o rendimento disponível, garantindo trabalho para um maior número de pessoas. Como não será preciso ser um expert na matéria, esta situação baixaria de imediato os encargos da Segurança Social, pelo deixar de pagar subsídios.
A visão reinante é a de que é preciso sacrificar alguns para salvar outros, em termos económicos. Isto é uma teoria no mínimo imoral e incompreensível para nós. O tempo, tem também vindo a mostrar que de todo não corrige coisa nenhuma, nem aquilo que pretendia corrigir, as contas públicas. Apenas alcança uma injusta e imoral situação, o aumento exponencial da pobreza.
Basta ver quem são os únicos apoiantes destas teorias económicas para perceber qual o seu objetivo. Apoiam estas teorias, além de alguns teóricos ultraliberais, os banqueiros, e os grandes empresários, ainda outros muito ricos e especuladores.
Que pensaremos, quando o suicídio aumenta o que aumenta nos países em crise, que é uma boa maneira de acabar com os pobres? Que morrendo estes só ficam os ricos? Desenganem-se, pois para fazer um rico é necessário fazer milhares de pobres.
Também aqui para elucidar sobre a minha opinião, cito Almeida Garrett,um liberal da época, mas com um liberalismo que muito me agrada, num trecho do seu livro viagens na minha terra, onde já na altura da revolução industrial, o percebia também:
"Mais umas poucas Dúzias de Homens Ricos Não:
Pantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos-de-ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis."
Almeida Garrett (1799-1854), in 'Viagens na minha Terra'
Como já vai longa a missiva de hoje vou terminar com mais duas questões:
ESPERAMOS QUE TAMBÉM POR CÁ, NO NOSSO PAÍS DE BRANDOS COSTUMES, AS PESSOAS SE IMOLEM PELO FOGO NA PRAÇA PÚBLICA?
SERÁ NECESSÁRIO VOLTAR UM QUALQUER CAMARADA VASCO, E COM ELE A CÉLEBRE FRASE PÓS-REVOLUCIONÁRIA “ OS RICOS QUE PAGUEM A CRISE”?
HOJE A MIM, A FRASE, PARECE-ME MAIS ATUAL QUE NUNCA.
13-02-2013
DINIS JESUS
